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Bernardo Carvalho

Biography

Bernardo Carvalho (1960) is a leading Brazilian novelist and journalist. Before becoming a novelist, he worked in Paris and New York as a foreign correspondent for the Brazilian daily newspaper Folha de São Paulo.

His 1993 debut, a collection of stories entitled Aberração (Aberration), was immediately nominated for the country’s most prestigious literary prize. What appear in this collection are leitmotifs, which, in countless variations, continue through his following nine books, all of them novels: secrets to be exposed, past events pervaded by the present, poetry and truth inextricably intertwined with one another, and a game played with diverse perspectives and identities. Anyone who reads a novel by Bernardo Carvalho inevitably becomes a detective in the process.

His first novel Onze was published in 1995. In 2002, his fifth novel Nove Noites (Nine Nights) aided his international breakthrough. This fictional work is based on a true story, namely the fate of the young American anthropologist Buell Quain, who, during a 1939 research project carried out among the endangered Krahô Indians in the Brazilian jungle, took his own life for inexplicable reasons and in the most gruesome manner. Around sixty years later, a Brazilian journalist, searching for evidence and traces of the suicide victim, travels down the Xingu River in order to reconstruct Quain’s last days and nights.

The next novel, Mongólia (2003), leads a Brazilian diplomat from Shanghai through Peking and into Mongolia to establish the whereabouts of a young Brazilian photographer who vanished without a trace. Mongólia received an award from the Association of Art Critics of São Paulo and the Premio Jabuti. His latest novel O Filho de Mãe was published in 2009.

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Authors' text

VLAMÍNDIA

Não tenho palavras para lamentar o momento em que, por mera curiosidade, depois de ter me sentado diante da escrivaninha, pronto para começar a escrever o texto que deveria coroar a minha experiência neste lugar, abri a gaveta e encontrei o manuscrito do hóspede precedente.

É comum escritores não se suportarem. Não é disso que estou falando. Estou falando de uma obsessão. Viemos do mesmo lugar, nascemos no mesmo ano, estudamos na mesma escola. Ele me persegue. Basta ele publicar um novo título para eu voltar a sonhar com a sua morte. Só a coincidência sinistra que me faz descobrir, a cada novo livro que ele publica, tratar-se do mesmo com o qual eu vinha me debatendo, em vão, na tentativa de também escrever um romance, pode dar uma ideia do infortúnio de sucedê-lo nesta residência que já recebeu tantos outros escritores de tantas outras nacionalidades. Que outra explicação, além da sina maldita que nos une desde sempre, pode dar conta da infelicidade de ter sido ele e mais ninguém entre as centenas de milhares de escritores pelo mundo quem me precedeu neste retiro onde achei que pudesse enfim esquecê-lo e escrever meu romance em paz?

Como só a partir de mim passaram a exigir que os escritores se ativessem ao aspecto imaginário da ficção (evitando usar o gênero como fachada para contar a verdade sobre suas experiências neste lugar incrível), suponho que o manuscrito dele que encontrei na gaveta tenha algo a ver com isso. Chama-se "Vlamíndia" e começa assim:

"Pelo regulamento, tinham todo o direito de pedir que ele se retirasse da parte da casa cujo uso era vedado aos escritores e onde ele se encontrava ilegalmente refestelado, ouvindo a música dos donos da casa, quando eles chegaram com seus convidados.

Não se fez de rogado: decidiu dar uma volta para espairecer e esquecer a contrariedade. A região era muito bonita e bem cuidada, graças às propriedades que se sucediam, com cercas impecáveis, câmeras de segurança nas entradas e placas que alertavam: ‘Propriedade privada, mantenha-se afastado'.

O caminho estava pontuado por avisos na língua da Vlamíndia. Graças ao dicionário bilíngue (e não-autorizado, publicado por imigrantes ilegais) que ele havia comprado no mercado negro, conseguiu traduzir a maioria deles: "Cuidado: Vacas", "Não pise no pasto", "Bela vista de colina", "Cavalos típicos da região", "Milharal", "Castelo" etc.

Os vlamíndios não queriam correr o risco de contaminação, nem mesmo através da equivalência e da correspondência de sua língua com outras línguas. Estavam muito bem equipados para evitar a presença de estranhos, o que garantia um aspecto uniforme, muito limpo e tranquilo à paisagem. Os castelos que pontuavam os vales verdejantes podiam ser avistados ao longe, das estradas vicinais, mas seu acesso estava vedado a pessoas não-autorizadas, por questões de segurança, mas também de estética e de higiene. E foi por pura desinformação, tentando chegar a um desses castelos, que ele acabou vivendo sua derradeira experiência.

Demorou a entender que o castelo era completamente inacessível, como se esperassem um ataque de hordas medievais a qualquer instante. A Vlamíndia tem uma longa história de guerras, de modo que já estão mais do que escaldados. Na primeira tentativa, ele tomou a estrada que margeava um bosque nos fundos do castelo, atravessando antes um pequeno povoado de casas uniformes, com bandeiras da Vlamíndia pregadas às cercas, às portas e às janelas sempre fechadas. Não havia ninguém na rua. As vacas, os carneiros, os cavalos e os cães eram os únicos seres vivos ao ar livre. Ao vê-lo passar, os cães se arremessavam contra as cercas das casas onde estavam presos, latindo desesperadamente. Três crianças que o observavam da soleira da única porta aberta receberam-no com pedras quando ele sorriu para elas. O caminho que seguia para o castelo por dentro do bosque terminava num portão vigiado por câmeras penduradas em árvores centenárias. Numa delas, uma placa avisava o que, pela recorrência, ele já não precisava do dicionário não-autorizado para traduzir: "Cuidado! Acesso expressamente proibido a estranhos".

Tomou, então, a estrada que margeava a frente do castelo, onde ficava o portão principal, também vigiado por câmeras e protegido por uma cerca elétrica. Antes, porém, passou por uma fileira de casas um pouco mais exuberantes que as do povoado dos fundos do castelo, o que não queria dizer grande coisa. Eram monocromáticas. E ostentavam todas a bandeira roxa e preta da Vlamíndia.

Em seguida vinha uma longa cerca-viva, encimando um talude que impedia a visão do castelo. O escritor seguia tranquilo pela estrada vicinal quando ouviu o estrépito de motores cada vez mais próximos, quebrando o silêncio tão festejado da Vlamíndia. Surgindo em alta velocidade por uma curva fechada, dois triciclos conduzidos por homens com capacetes pretos e roxos, as cores nacionais, por pouco não o atropelaram. Na sua ingenuidade estrangeira, o escritor acreditou que estivessem de passagem, até entender que voltavam e estavam atrás dele. Teve de subir o talude, correndo, de quatro, e se jogar por cima da cerca-viva, para salvar a pele, mas não por muito tempo."

O manuscrito prossegue, de modo mais ou menos previsível, narrando como, do outro lado da cerca, o escritor se viu perseguido por uma matilha de cães e acabou capturado pelos empregados do castelo, que o esquartejaram e o enterraram aos pedaços no jardim, antes mesmo de ele poder desfrutar da vista extraordinária e da construção reputada pela imponência e considerada, em mais de um guia turístico da Vlamíndia que ele conseguira traduzir com o auxílio do dicionário ilegal, um dos atrativos da região.

Não é preciso dizer que minha experiência foi outra. Não sei onde ele foi buscar inspiração para inventar essa história insólita e inverossímil. Passei uma temporada maravilhosa, escrevendo e caminhando por paisagens de tirar o fôlego. Em vez de cães bravios, encontrei seres adoráveis, sempre dispostos a ajudar um estranho perdido. Nunca me diverti tanto. Pelo menos até abrir a maldita gaveta. Só tenho mais uma coisa a dizer: acho improvável, mas se é que o puseram mesmo para fora dos aposentos onde ouvia música, refestelado, é porque sabiam com quem estavam lidando. No lugar dos donos da casa, eu teria feito a mesma coisa.

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